
Stefano Domenicali
Após o polemico Grande Prêmio da Alemanha 2010 rolou muita discussão sobre a moralidade das equipes que dão ordens aos pilotos durante a corrida e a legitimidade das mesmas para tal. Entretanto, a maioria das pessoas que conversaram comigo sobre tais questões não acompanham a Fórmula 1 tão assiduamente quanto eu. Além de muitos ainda estarem, de certa forma, traumatizadas com o GP da Áustria em 2002, quando a Ferrari ordenou que Barrichello cedesse sua vitória para Schumacher.
É muito importante ressaltar que, independente da opinião de qualquer pessoa sobre ordens de equipe, as ordens de equipe são proibidas pelo regulamento e todos os envolvidos na manobra descumpriram o regulamento e devem ser punidos.
Os diretores de prova multaram a Ferrari em US$ 100.000,00 após a prova por ordens de equipe e atitude antidesportivo. Todos nós que acompanhamos a Fórmula 1 sabemos que para as equipes este dinheiro é troco de pinga. Principalmente para a Ferrari. Mas este é o valor máximo permitido pela FIA para multas em autódromos.
Num movimento natural do jornalismo imediatamente após a corrida a imprensa buscou declarações de diversas personalidades respeitadas na Fórmula 1. Muitas divergindo entre si mas a maioria condenando as atitudes, ora da Ferrari, ora de Felipe Massa, ora de ambos.

Ross Brawn
Ross Brawn, chefe de equipe da Mercedes e chefe de equipe da Ferrari em 2002, declarou que a proibição de ordens de equipe é irreal.
Martin Whitmarsh, chefe de equipe da McLaren, e Christian Horner, chefe de equipe da Red Bull, afirmou que ordens de equipe são prejudiciais ao esporte e que em suas equipes não há ordens de equipe pois estão compromissados com os pilotos e querem que eles tenham gosto em estar numa equipe que dá o máximo para que ele ganhe corridas e o campeonato.
Na minha humilde opinião ambos estão certos em suas opiniões. Mesmo sendo contra tais ordens eu acredito que a decisão deve ser das equipes. A preocupação com seu futuro no esporte não deve ser normalizada e regulamentada.
O grande prejuízo das ordens de equipe à Fórmula 1 está relacionado diretamente às opiniões dos torcedores e dos pilotos.
Os pilotos buscam ser campeões mundiais e ficar em uma equipe que limite seu desempenho não é interessante. Mas as equipes que dão ordens de equipe o fazem para favorecer um piloto, o que é interessante para qualquer piloto que venha a ser favorecido.
Em geral os torcedores são os clientes finais das equipes. A principal fonte de receita das equipes são os patrocínios e contratos publicitários, comerciais e licenciamento de marca e imagem. Tudo isso depende da receptividade e aprovação dos torcedores.

Alonso e Hamilton
Na maioria dos esportes o mais importante é o lucro dos participantes. Mas não basta o lucro de uma temporada ou outra. Os esportistas querem fazer carreira no esporte e dependem de ganhar dinheiro durante toda a carreira. Os times e equipes buscam obter seus lucros continua e prolongadamente.
Não basta ganhar muito dinheiro num ano e sentenciar o esporte ao prejuízo nos anos seguintes. Por isso é importante respeitar os esportistas e os torcedores.
Mas há de ser feita uma consideração. A Ferrari não é como as demais equipes. A fonte de receita da Ferrari provem da montadora. A relação da escuderia Ferrari com a montadora Ferrari é praticamente industrial. A escuderia é fornecedora da montadora. Enquanto nas demais equipes, em sua maioria, a relação é comercial.
É óbvio que a Renault quer utilizar em seus carros de rua as tecnologias desenvolvidas para os carros de pista. Mas o objetivo principal da escuderia é fazer dinheiro e agregar valor à marca Renault.
A Red Bull Racing, além de obter lucro, visa alavancar o consumo de sua bebida. Ou você acha que o interesse dela é tecnológico e que pretende fazer atualizações aerodinâmicas na lata da Red Bull? O mesmo acontece com a Toro Rosso, também da Red Bull.
Para a grande maioria das equipes a desaprovação por parte dos torcedores afeta diretamente o bolso delas. As equipes e seus patrocinadores promovem eventos e comerciais continuamente para o público geral. A Ferrari só o faz para um público seleto. Muitas vezes direcionados apenas a investidores.
Os Tifosi são outra variável importante desta equação. São estes torcedores que importam para a Ferrari. Seus clientes de fato. E estes não estão interessados na esportividade nem nas conquistas dos pilotos. Só as conquistas da Ferrari importam. Muitas vezes torceram contra italianos correndo na Italia em outras equipes por estarem na frente de uma Ferrari.
Feitas estas constatações eu declaro que sou contra ordens de equipe pois acredito que elas sejam prejudiciais não só ao esporte mas também, em geral, às equipes e aos pilotos. Mas estando todos os envolvidos cientes e de acordo da situação, não vejo motivos para negar a uma equipe o direito de solicitar que um piloto ceda sua posição ao companheiro de equipe.

GP da Áustria em 2002
Os problemas sérios decorrentes de tais ordens começam a surgir quando se tem casos similares a Áustria 2002, quando Barrichello esteve na liderança durante toda a prova e foi ordenado a dar passagem a Schumacher. Principalmente levando-se em conta que Schumacher já era líder do campeonato e o vice era o próprio Barrichello, com grande vantagem do alemão.
Em 2002 não havia qualquer necessidade de inverter as posições. Não havia qualquer risco para o campeonato. Diferente de hoje com Alonso e Massa. Em 2001 Barrichello cedeu a segunda posição para favorecer Schumacher e a Ferrari declarou que tal manobra não seria solicitada se fosse a liderança da prova que estivesse em jogo. E ainda assim o foi.
As ordens dadas pela Ferrari em 2002 foram completamente condenáveis nos aspectos moral e esportivo. Motivo pelo qual sempre fui contra tal ordem. Neste ano a Ferrari teve motivos claros e compreensíveis para tal articulação, mas não deixa de ser condenável, pois vai contra o regulamento.
P.S.: O regulamento pode ser modificado para o ano que vem de modo a permitir tais ordens, mas estas só serão permitidas quando o piloto desfavorecido já não tiver condições matemáticas de ganhar o campeonato.








Olá Cleiton e Maurício!
Blogosferando por aí, caí aqui no blog de vcs, muito legal!
"Manda quem pode, obedece quem tem juízo" – é mais ou menos assim, a Ferrari manda e qm quer continuar nela, obedece.
Sabemos que existe um certo prestígio em ser eleito para correr na Ferrari por toda sua história no automobilismo. Quão não foi comemorado o contato (e depois contrato) do Rubens com a Scuderia? Depois com Massa.
Por mais imoral que nós brasileiros possamos julgar (por defendermos os pilotos da casa), para os tifosis é a Ferrari q importa e vc ressaltou isso com primor.
Seu ponto de vista é muito bom, Maurício!
Parabens pelo Shock Motors, virei mais vezes…
Gisele Raposo
Café com F1
É sempre desse jeito com nós os brasileiros. A Ferrari fez pela segunda vez essa grande injustiça nas pistas. Primeiro foi com Rubens Barrichello, quando ele deixou Michael Schumacher ultrapassá-lo para ele chegar em 1º, agora foi com Massa, para o espanhol ganhar. Até quando veremos isso?
Pinheirinho é divulgador cultural é maranhense, a partir de Brasília. – E-mail: pinheirinhoma@hotmail.com