
"Chamando no grau"
Quando eu comecei a me envolver com carros, acompanhava muitos rachas de rua. Aqui em São Paulo eu poderia citar inúmeros locais onde isso acontece toda sexta-feira, mas é melhor deixar quieto. Era emocionante ver carros de rua passando na sua frente entre 160 e 200 Km/h, raramente ocorriam problemas. O clima dos rachas que tem por aqui é realmente impressionante, muitas mulheres, som alto, bebidas e até certa popularidade em torno de algumas pessoas. Foram mais de 2 anos nessa loucura, era racha de rua na quinta e sexta-feira, arrumar os carros no sábado e ir pra arrancada aos domingos, realmente eu me empolgava e era muito bom aquilo, até que um dia eu vi o primeiro acidente.
Havia uma equipe de uns 4 caras, cada qual com um táxi customizado, eles eram os “Táxi D’loco”. A galera se movimentava no posto de gasolina toda vez que aqueles quatro carros brancos apareciam, demonstrando seus motores preparados, suspensão a ar e fazendo manobras em alta velocidade na Av. das Nações Unidas. O cara vinha com seu um Corsa Sedan a uma velocidade razoável, em torno de 100 ou 120 Km/h, mas o carro de trás bateu nele e então o cara do Corsa perdeu o controle por uma fração de segundos, o que fez a traseira do carro pegar a calçada e conseqüentemente uma pessoa. Nada de grave, apenas uma fratura na perna e algumas pessoas se prontificaram a levar o coitado ao hospital.
Mesmo depois disto, continuávamos a lotar aquele posto de gasolina toda sexta-feira, até que em um belo dia o pior aconteceu. Eu estava saindo de casa em direção a casa de um amigo, quando senti um imenso frio na barriga, não dei atenção e fui chama-lo para o sagrado evento. Na casa dele, o filho de 13 anos estava insistindo para ir junto, não deixamos alegando que era muito perigoso e então partimos para o ponto que já estava bem famoso aqui na zona sul.
No ápice do racha, estávamos conversando, rindo e vendo carros e mulheres. O estranho é que naquele dia haviam dois caras estranhos por lá, um portava uma câmera profissional e o outro, equipamento de iluminação. O frio na barriga voltou, mas realmente estava muito frio no dia e continuamos a jogar conversa fora quando de repente tudo parou com um estrondo. Um jovem tentou atravessar a avenida e no exato momento passou um Kadett GSI Turbo em 5º marcha, a velocidade devia beirar os 200 Km/h. O carro atingiu o pedestre em cheio, lançando-o a cerca de 4 metros do chão. Todos ficaram paralisados vendo aquele corpo rodando e suas roupas se despedaçando no ar, ele caiu novamente no chão e então fomos correndo verificar o estado. Morto. Ele caiu bem ao próximo ao nosso carro que estava estacionado. Com o impacto, suas roupas saíram do corpo, sobrou apenas a cueca e um pedaço da camiseta. Seus corpo estava totalmente deformado, pescoço quebrado, braços tortos e pernas dobradas. Gritaria total, algumas pessoas choravam, outras gritavam de desespero e outra grande parte fugia. Ligamos para o resgate, mesmo sabendo que não adiantaria nada, afinal o cara já era. Eu e meus amigos ficamos em estado de choque depois daquilo, eu fiquei sem dormir a noite toda e no outro dia não acreditava no que tinha acontecido.
No sábado de manhã já estávamos na oficina falando sobre o assunto e começamos a debater algumas coisas e desde então eu não vou mais neste tipo de corrida.
É uma grande emoção, quem gosta de corridas e já foi ou participou de rachas sabe do que eu estou falando. O grande problema é que a cada dia mais pessoas perdem a vida, ou se tornam deficientes por causa da imprudência ao volante, mas a culpa não é só de quem pratica a corrida ilegal.

Mais um acidente nas ruas
Aqui em Sampa o investimento em eventos para pilotos amadores e carros de rua é muito baixo, a FASP (Federação De Automobilismo Do Estado De São Paulo) deixa a desejar em diversos aspectos. Por um bom tempo, quando eu chegava em Interlagos para assistir a uma prova de Arrancada, a arquibancada era lotada, os pilotos não gastavam muito para correr e o evento era ótimo. Mas em meados de 2005, a coisa começou a ficar feia. Ingressos mais caros, inscrição mais cara e a pista estava um lixo. Já ficou impossível alguém colocar seu carro na pista sem gastar menos de 450 reais e correr por apenas um dia. O número de equipes na pista começou a cair, na arquibancada acontecia o mesmo. Além dos elevados custos, havia o grande problema do asfalto. Só há investimento na infra-estrutura do autódromo em época de Fórmula 1, afinal o número de turistas aumenta e os políticos querem fazer bonito. Porém, para realizar a reforma, todo ano o autódromo fica fechado por cerca de dois ou três meses, diminuindo a quantidade de provas em geral, Arrancada, Regularidade, etc..
Devemos nos mobilizar para garantir um lazer em local seguro e barato, a galera que gosta de velocidade também tem vontade de andar na pista, mas raramente surge alguma oportunidade. Desde 2007 não temos mais arrancada aqui na cidade de São Paulo, de vez em quando ainda rola algum evento para carros de rua, o que já significa uma pequena melhoria.
Fica o pedido: Se você curte uma baladinha com carros, mulherada e tudo que tiver direito, não vá para as ruas, preserve sua vida e de outras pessoas também.
UPDATE
Recebi um comentário de um dos representantes da Equipe Taxi D’loko, o Geladinho. Segundo o mesmo, o acidente ao qual me referi no artigo, realmente foi causado pelo veiculo que vinha logo atrás, e foi o veiculo de trás que atingiu o rapaz na calçada. Também fui informado de que a Equipe Taxi D’loko tem total treinamento para fazer as manobras e ainda conhecimentos sobre primeiros socorros. O Geladinho também mandou um recado importante que vale a pena lembrar:
Na época, eles cometeram sim alguns erros, mas hoje a Equipe não faz mais manobras nas ruas e não recomenda que ninguém faça. Grande abraço a Taxi D’Loko e obrigado pelo esclarecimento.
Cleiton Souza






